Naquela noite, algo estranho ocorreu. Assistiu à novela e foi se deitar, como de costume. Sentou-se na cama e descalçou as chinelas. Mas, quando se deitou, veio-lhe à mente uma revelação. Todas as noites da sua vida fez exatamente o mesmo movimento antes de deitar-se. Tirava as chinelas. Deixava-as ao lado da cama. Deitava e dormia. Na próxima manhã, levantava e calçava as benditas chinelas para iniciar o novo dia. Deu-se conta de que todas as manhãs saía do quarto, ia até a cozinha e colocava água no fogo para o café. Só depois disso se dirigia ao banheiro para urinar e entrar no banho. Por quê nunca invertera a ordem, indo ao banheiro primeiro e depois à cozinha?
Nunca havia parado pra pensar nisso. Fazia as coisas, somente. Notou que, no banho, sempre lavava os cabelos antes de lavar o corpo e sempre cutucava a orelha direita antes da esquerda, nunca o contrário O banho durava 2 minutos - uma eternidade - o tempo exato para chegar na cozinha e tirar a água fervente pro café. As torradas e a manteiga também já estavam à postos, assim como o jornal na porta da casa. Viu que tudo o que fazia era igual, o dia todo. O nó na gravata, as meias, os sapatos. Há 23 anos trabalhava na mesma empresa. Usava o mesmo uniforme. A mesma maleta. Dirigia-se à sala de seu chefe e usava as mesmas palavras:
- Bom dia, Dr. Furtado!
- Bom dia!
Seu chefe sim havia mudado, pois o Dr. Furtado falecera há 5 anos, mas como o sucessor foi seu filho, mudou só o chefe, não a frase.
Sua esposa era a única mulher que teve em toda a vida. Ela cuidava da casa, que sempre foi a mesma. Não tiveram filhos nem animais de estimação. Não tinha muitas memórias. As únicas eram antigas, vagas. Ele criança, brincando no quintal da casa de sua mãe. Além disso, só lembrava de seu uniforme, do Dr. Furtado e de sua mulher.
Estava perplexo. Não podia aceitar aquilo. Tinha que mudar alguma coisa, fazer algo diferente. Percebeu que sua vida era inteiramente programável, uma rotina assustadora. Nos finais de semana, a mesma coisa. Acompanhava a mulher à feira, lia o jornal, assistia televisão esperando a nova semana começar. Todo dia tudo igual.
Revoltou-se num impulso que ele próprio estranhou, nunca havia reagido dessa forma. Fazia o que esperavam dele, somente. Nada inesperado. Lamentou profundamente a vida besta que levava.
Decidiu, naquele momento pôr um fim na sua melancolia diária. Não poderia continuar assim. Era melhor morrer, do que levar uma vida tão medíocre. Iria mudar sua rotina. A partir daquele momento, um novo homem iria a surgir. Um homem liberto, ousado e criativo.
Pensou em viagens pelo mundo, em ver outras paisagens, conhecer outras culturas. Lembrou de quando era criança e queria ir à Disneylândia. Imaginou campos verdes, onde iria correr livre, respirando novos ares. Pensou em praias desertas, lindas, cheias de coqueiros. Iria tirar o nó da gravata e mergulhar em novos mares, onde nadaria seguindo o seu coração, cheio de sonhos e sem compromissos.
A partir daquela noite seria um novo homem. Emocionou-se com tamanha revelação. Nunca havia pensado coisas como aquelas. Não acreditava como havia passado tanto tempo sem perceber tamanho marasmo, tamanha acomodação.
- Fui um covarde todos esses anos! Disse à mulher, que já dormia, ao seu lado.
Como se tivesse acordado de um sonho, olhou para a esposa dormindo, pensou bem, apagou o abajur e dormiu. Afinal de contas, amanhã o despertador toca às 6 e meia da manhã e ele não tem tempo pra perder com essas bobagens.