29.5.07

The Long Post


3 matérias publicadas nesses dias foram suficientes pra provocar o post mais longo até hoje. O tema é a indústria fonográfica. Por quê diabos fazer e viver de música se tornou um esporte radical, algo alcançável apenas para mágicos ou super-heróis?

Calma meu amigo, não se assuste com o tamanho do texto. Ative sua barra de rolagem e venha comigo.

A primeira matéria saiu no Estadão do último domingo, e dispara: "A indústria fonográfica está morta".

Ela trata do novo livro de Norman Lebretch, chamado Life and Death of Classical Music, lançado recentemente nos EUA e na Inglaterra. É sobre música clássica, mas podemos aplicar suas idéias a qualquer outro gênero. Lebretch é um crítico feroz à forma de comercialização da música, e parece vibrar de alegria ao constatar que a "Indústria da Música" está agonizando, que as majors não sabem o que fazer pra sobreviver e que o artista e fã cada vez estão mais próximos, sem a presença de intermediários e sem a necessidade dessa indústria. Um fato engraçado é que o próprio autor considera sua análise do mercado uma "autópsia pos-mortem". Que lindo!

Já na edição de segunda-feira do mesmo Estadão, meia página de destaque para o lançamento do novo disco da Vanessa da Mata. Matéria bacaninha. Lá no final dizem que a repórter viajou à convite da gravadora. Creio que pagar pra repórter falar bem do "seu" artista é uma das poucas alternativas que restam pra conseguir vender discos. Mas vale a pena, afinal, a Vanessa da Mata está em alta, é queridinha do grande público, teve o mega-hit do ano passado, até de cabelo joãozinho ela é linda. A matéria enche a bola da menina, das novas músicas, do disco mais maduro, tudo perfeito! Agora vai, Habemus Sperare! Será?

Como diria a própria Vanessa, ai, ai, ai...

Porém, quero destacar 2 iniciativas da Sony/BMG - da qual a Vanessa da Mata é contratada - e que me chamaram a atenção. A primeira é que vi no Youtube o username da gravadora. Ou seja, é ela própria que publica os vídeos oficiais de seus artistas, com um padrão de qualidade garantido por eles e pelos autores, ao menos é o que parece. A outra é o lançamento da Vanessa sair no formato EP, com apenas 5 músicas (acreditem, escolhidas pela cantora!) e com preço - impresso na capa - de R$ 9,99! E quem quiser as outras músicas pode adquiri-las no próprio site da gravadora. Achei interessante a proposta, que pode não durar muito, mas que pelo menos é uma alternativa bem melhor do que lançar CDs com proteção anti-cópias, por exemplo.

Com tudo isso na cabeça, recebo do meu grande amigo Thomaz, baterista do 2DF e lenhador canadense, uma matéria que saiu na Superinteressante desse mês, chamada "Mais criatividade. Menos patrões." Escrita pelo André Barcinski, a matéria se aprofunda em alguns "casos de sucesso" dessa nova era do consumo de música. Aponta muito bem que a música não está em crise. Quem está em crise é a indústria da música. Ainda mostra que nunca se ouviu tanta música no planeta, nem se vendeu tanto ingresso para shows. Exatamente como Lebretch, decreta o fim dos intermediários e cita duas fontes importantes: Os livros "The Future of Music", de David Kusek e Gerd Leonhard, e o já clássico "The Long Tail: Why the Future of Business is Selling Less of More", de Chris Anderson.

Não conheço a fundo o livro da dupla Kusek e Leonhard, mas fiquei com vontade de lê-lo, por abordar a ascensão dos artistas e da música nos novos formatos. Já o Long Tail trata do caminho lucrativo da informação através dessa web que amamos e para os negócios que queremos. Resumindo, esses livros indicam os dois pilares para esse futuro: O artista e o público.

Era aqui que eu queria chegar: finalmente, estamos vivendo o início de uma época onde o artista é quem decide o que fazer com sua obra. Sem a necessidade de gravar suas músicas num estúdio imponente, nem de milhões de fãs pra fazer "sucesso", os artistas independentes ressurgem, mas agora independentes no sentido real da palavra, e não apenas para fazer frente a queridinhos de multinacionais.

Agora, vale mais o produzir a si próprio, e produzir do seu jeito, cada um dono do seu nariz. Claro que ninguém faz nada sozinho, mas a vovó já dizia que é melhor trabalhar com pessoas de confiança, que conheçam o assunto e principalmente que entendam e respeitem o trabalho do artista. E não com aventureiros que vislumbram um mundo de sonhos do show business.

Mas vem a pergunta: "E depois? O que fazer depois que mostrei o dedo pras gravadoras, gravei meu CD por conta própria e estou com prateleiras lotadas dele aqui na minha casa, só a mamãe elogiando?"

Calma, meu garotinho juvenil. Aí valem as dicas da cauda longa.

Primeiro, descubra seu público. Não importa se ele é pequeno, se é só sua família, ou se sua comunidade no orkut tem algumas centenas de camaradas. O importante é descobrir quem são essas pessoas e quais suas características.

Feito isso, fale com elas da maneira mais direta possível. Mostre que você sabe do que elas gostam e que você faz o que elas gostam. A web funciona pra isso e é uma boa maneira, se não a mais eficiente, por permitir um contato direto com quem se interessa pelo seu trabalho e por não ter custos elevados. Se houver uma verba de investimento, melhor ainda. Um bom site não faz mal a ninguém.

Da mesma forma, idéias criativas não precisam mais de horário nobre na televisão pra serem reconhecidas. Quem gosta de seu trabalho, além de fã, vira automaticamente um divulgador. E na maioria dos casos, um divulgador extremamente eficiente. Propaganda boca-a-boca sempre funcionou e sempre funcionará, pois vem com voto de confiança.

Depois de descobrir seus fãs e falar com eles, vem a parte boa. É hora de convidá-los para seus shows e mostrar ao que veio. Se tem algo no mundo da música que não será susbtituído - a não ser que você queira, e, nesse caso, não me chame - é a presença física, a energia de um artista expressando seu trabalho ao vivo. Sua música é a sua Hattori Hanzo, o sabre de luz do jedi, o gol mil do Romário. Não tem igual.

A matéria do Barcinski cita alguns exemplos de como isso dá certo. Já o meu exemplo preferido é o do Gnarls Barkley, pelas boas músicas e pelas idéias audiovisuais, como um clipe bem bacana e o Chewbacca tocando bateria. Uma idéia que parece besta, mas mais besta sou eu, que não pensei nisso antes...

Vale a pena dar uma olhada, de repente cai um caqui na sua cabeça e alguma idéia surge. Já que caqui tem se dado bem com música ultimamente, por quê não tentar?

Depois a gente conversa mais dessas coisas...

3 comentários:

Ana Carmo disse...

O post é longo mas é uma delícia de ler! e os hiperlinks são o máximo!

adorei!!

ueda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
u disse...

caraio, teo.
ficou com tendinite depois dessa.






bela postagem, aliás. ;)