Nos últimos dias, alguns acontecimentos do nosso cotidiano evidenciaram o ponto em que o homem chegou. Não digo do homem idealizado, o ser que supostamente evoluiu do macaco. Falo do homem que está aqui perto, o nosso vizinho, o cara que está do outro lado da rua, ou mesmo seu marido, ou eu mesmo. Qualquer um. Estamos loucos.
Seja o cara que matou a mãe por que ela estava possuída, o pai dirigindo na contramão da estrada ou o garoto invadindo o posto de gasolina e levando tudo o que (não) vê. A repercussão desses fatos está me revelando algo. A barbárie - não há outra palavra - está à nossa frente. Ou melhor, está dentro da gente.
O que levou o pai de um menino de 3 anos a colocar seu carro numa roleta russa na estrada? Foi a briga com a namorada? Foi o demônio que fez a mãe do rapaz brigar com ele? Foi o lança-perfume que fez o moleque desmaiar e invadir nossas casas? Sim, por que ele invadiu não apenas um posto de gasolina, ele invadiu a casa de todos nós, de todos aqueles que querem 'vencer' na vida, sustentar seus filhos e vê-los bem sucedidos.
Todas essas ocorrências tem algo em comum. A futilidade. Não há argumentos para sustentar quaisquer desses atos, nem muitos outros que vemos diariamente nos jornais ou em nosso bairro, com nossos próprios olhos. O problema é que estamos cada vez mais fúteis.
Não basta termos um bom emprego, nem uma boa família, nem um carro bacana, nem encontrarmos Jesus. Queremos mais, quereremos ser mais que os outros, não estamos satisfeitos e nunca iremos estar. O preocupante é que não sabemos os nossos limites, nem onde iremos parar. Só paramos quando é tarde demais, quando encontramos um caminhão em nossa frente.
Estou cansado de ver carro importado atravessar o farol vermelho, de ver adolescente descontar na mãe o fora que levou da garota da escola ou do status social de uma pessoa ser mais importante do que o que ela pensa sobre o mundo que vive. Fúteis, todos nós.
Temos medo de perder o pequeno império material que construímos, temos medo de não sermos populares, de fazer papel de bobo, temos medo de nos trocarem por outro. Pra 'defender' isso, somos capazes de tudo.
Até mesmo o mais bonzinho dos homens vira uma fera, passa por cima dos outros e dos seus princípios quando se vê ameaçado, ou quando as coisas não saem como ele havia planejado. Ninguém admite, mas como diria a sábia letra do Moreno Veloso, somos da filosofia do 'eu sou melhor que você'.
Em meio a todas essas tragédias cotidianas, podemos notar como deixamos a nossa paz de lado por coisas essas bobagens. Como nos importamos com coisas bestas, como entramos em brigas que não são nossas, e o quanto isso não nos leva à nada. Tudo pelo leviano prazer de ter razão. É melhor estar certo do que ser feliz.
Isso me lembrou do recente filme "Onde os Fracos Não Tem Vez", dos irmãos Joel e Ethan Coen, e do excelente vilão Anton Chigurh.
Também sou da opinião de que o personagem de Javier Bardem é um anjo do Mal, um ser invisível, que vaga pelo mundo sem ser importunado, apenas lembrando as pessoas que elas têm o que temer. Talvez o filme incomode tanto no seu desfecho por que nos traz aos dias de hoje. De fato, o mal não é punido. Ele está no meio de nós. E quanto mais você sair da linha, mais ele estará por perto para lhe cobrar. Ele faz parte de nossa Natureza.
Para mim, a melhor frase do filme é, quando diante da próxima vítima, o anjo malvado pergunta: 'Se a regra que você sempre seguiu te trouxesse até aqui, que valor ela teria?'
Por mais macabro que o Anton Chigurh possa parecer, eu reforço que ele é um anjo. Pois só um anjo para nos dar tão importante aviso. A regra que temos seguido – a regra da perda, de que algo me falta, a regra da futilidade – nos trouxe até aqui. Nos trouxe ao sofrimento e à barbárie.
Por isso, acho que vou seguir o aviso do Chigurh e mudar a minha regra. Chega. Já tenho coisa suficiente pra resolver, não preciso arrumar mais. Se precisar de ajuda me fale. Eu lhe ajudo, mas sofrer e fazer drama eu não vou. É minha escolha.
Assim como outro 'felizardo' que cruza Anton Chigurh. Ao ser obrigado a fazer uma escolha, pergunta: 'O que eu vou ganhar com isso?'
E o santo Chigurh responde:
- Tudo.
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